Thursday, January 18, 2001

Namorado: ter ou não ter, é uma questão
(Carlos Drummond de Andrade)

Quem não tem namorado é alguem que tirou férias de si mesmo.
Namorado é a mais dificil das conquistas.
Difícil porque namorado de verdade é muito
raro.
Necessita de adivinhacão, de pele, de saliva,
lágrima, nuvem, quindim, brisa ou filosofia.
Paquera, gabiru, flerte, caso, transa, envolvimento, até paixão é fácil.
Mas namorado, mesmo, é dificil.
Namorado não precisa ser bonito, mas aquele a quem se quer proteger e quando
se chega ao lado dele a gente treme, sua frio e quase desmaia pedindo proteção.
A proteção dele não precisa ser parruda,
decidida, ou bandoleira: basta um olhar de compreensão ou mesmo de aflição.
Quem não tem namorado não é quem não tem um amor: é quem não sabe o gosto
de namorar.
Se você tem três pretendentes, dois paqueras, um envolvimento e dois amantes, mesmo assim pode não ter namorado.
Não tem namorado quem não sabe o gosto da chuva, cinema sessão das duas, medo do pai, sanduíche de padaria ou drible no trabalho.
Não tem namorado quem transa sem carinho, quem se acaricia sem vontade de virar sorvete ou lagartixa e quem ama sem alegria.
Não tem namorado quem faz pactos de amor
apenas com a infelicidade.
Namorar é fazer pactos com felicidade ainda que rápida, escondida, fugidia ou impossível de durar.
Não tem namorado quem não sabe o valor de mãos dadas; de carinho escondido na hora em que passa o filme; de flor catada no muro e entregue de repente;
de poesia de Vinicius de Moraes ou Chico Buarque lida bem devagar;
de gargalhada quando fala junto ou descobre a meia rasgada;
de ânsia enorme de viajar junto para a Escócia ou mesmo de metrô, bonde, nuvem, cavalo alado, tapete mágico ou foguete interplanetário.
Não tem namorado quem não gosta de dormir agarrado, fazer cesta abraçado, fazer compra junto.
Não tem namorado quem não gosta de
falar do próprio amor, nem fica horas e horas olhando o mistério do outro dentro dos olhos
dele, abobalhados de alegria pela lucidez do amor.
Não tem namorado quem não redescobre a criança própria e a do amado e sai com ela
para parques, fliperamas, beira d'agua, show do Milton Nascimento, bosques enluarados,
ruas de sonhos ou musical da Metro.
Não tem namorado quem não tem música secreta com ele, quem não dedica livros, quem não recorta artigos, quem não chateia com o fato de o seu bem
ser paquerado.
Não tem namorado quem ama sem gostar;
quem gosta sem curtir; quem curte sem aprofundar.
Não tem namorado quem nunca sentiu o
gosto de ser lembrado de repente no fim de semana, na madrugada ou meio dia
de sol em plena praia cheia de rivais.
Não tem namorado quem ama sem se
dedicar; quem namora sem brincar; quem vive cheio de obrigações; quem faz
sexo sem esperar o outro ir junto com ele. Não tem namorado quem confunde
solidão com ficar sozinho e em paz.
Não tem namorado quem não fala sozinho,
não ri de si mesmo e quem tem medo de ser afetivo.
Se você não tem namorado porque não descobriu que o amor é alegre e você
vive pesando duzentos quilos de grilos e de medo, ponha a saia mais leve, aquela de chita, e passeie de mãos dadas com o ar.
Enfeite-se com margaridas e ternuras e escove a alma com leves fricções de
esperança.
De alma escovada e coração estouvado, saia do quintal de si mesmo e descubra o próprio
jardim.
Acorde com gosto de caqui e sorria lírios para
quem passe debaixo de sua janela.
Ponha intenções de quermesse em seus olhos e beba licor de contos da fada.
Ande como se o chão estivesse repleto de sons de flauta e do céu descesse
uma névoa de borboletas, cada qual trazendo uma pérola falante a dizer frases sutis e palavras de galanteria.
Se você não tem namorado é porque ainda não enlouqueceu aquele pouquinho necessário para fazer a vida parar e de
repente parecer que faz sentido.